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As Quatro Estações

"O bom humor é a única qualidade divina do homem." (Schopenhauer)

Pestana, o Bom

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Não tenho um "hobby".

Se me chamam para uma pelada, eu vou. Como já não tenho o fôlego dos meus vinte anos – ah, os meus vinte anos, sempre que me lembro dos meus vinte anos vejo quanta babaquice há em se falar em "melhor idade" com cinqüenta -, e como me recuso a jogar no gol porque não sou tão pereba, fico na banheira à espera de um lance de oportunismo.

Se uma morena fica pelada para mim, eu ainda dou conta, apesar da idade. Tal como no outro jogo, o que me falta em fôlego é compensado pela experiência, o conhecimento do campo, a boa colocação, a capacidade de receber e dar um bom passe, de penetrar nas pequenas áreas com decisão e habilidade, de saber dar um toque sutil, de efeito, ou até, quando pede a ocasião, de chapa para o gol.

Gosto de cinema, de música, de ler, e de falar besteira na internet. Mas não faço de nada disso um mero passatempo.
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Eduardo Leal
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sonhadora
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Emilia Eiko
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Luciana Mello
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mahfuz
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KaIrA
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feat kurşun

Updated 3/8/2008
Updated 3/14/2008

Fatos e interpretações

 

Interpretação

 

Ser verdadeiro não tem, acho eu, nada a ver com realidade. Hoje, por exemplo, estou me sentindo assim, assim, e é certo que esse estado de espírito afeta a minha visão da realidade. Todos temos sempre uma visão da realidade, mas não podemos dizer o que ela é, de  fato. Ou, como diria Nietzsche:



"Contra o positivismo que perante os fenômenos diz: 'Há apenas fatos', eu digo: 'Ao contrário, fatos é o que não há; há apenas interpretações."


(E não se pense que eu vá sentar num formigueiro sem cuecas para provar a minha tese.)

A técnica do haicai, por exemplo, especialmente para os seguidores de Bashô, consiste justamente em minimizar essa intervenção das nossas interpretações na observação do mundo, para tentar captar o sentimento essencial.

Isso minimiza, mas não elimina as interpretações. A diferença entre o artista e outros interpretadores, é que o artista interpreta o mundo com arte, e alguns com uma arte tão refinada que parecem ter captado a realidade como ela é. Ou não?


 

  O apanhador de nabos
Mostra o caminho
Com um nabo.

 

Issa

Reminiscências

 

Balaustres

 

Para chegar ao escritório, na Glória, salto do ônibus num
lugar onde antes dos aterros era mar. E subo as escadas de
um muro antigo, decorado com balaústres, que separava a rua da praia.

Todo dia faço esse mesmo caminho, e todo dia renovo a
minha afeição por esse muro, onde a gente se apoiava para
admirar a baía, ali, pertinho.

 

***

É dia de doce -
O alarido dos moleques
Descendo a ladeira.

 

豹 哮

 

Meu bem, meu mal

 Monte Yoshino
 
A gente, às vezes, não se dá conta de que nada neste mundo é de graça - e não estou falando só do vil metal. Tudo que fazemos ou deixamos de fazer tem um preço. Ser ou não ser é uma questão de custo x benefício, e Hamlet talvez não ficasse tão angustiado se tivesse essas noções básicas de economia existencial.

O preço que o poeta tem que pagar para sê-lo, é bem alto: ele simplesmente não pode ficar sem palavras diante do poético. Ninguém o obriga a coisa alguma, ele mesmo se sente obrigado, por uma compulsão inerente ao fato de ser um poeta, a exprimir o que sente em
palavras. É o seu bem e o seu mal.

E prá isso o sujeito, de repente, tem que se virar, como diz o povo. Por exemplo, o poeta Teishitsu:


Ah !
E isso foi tudo o que eu disse
Vendo as flores do Monte Yoshino !
 

Vejam  quanta coisa o malandro disse prá dizer que não disse nada, ou quase nada!


***

Yoshinoyama (Monte Yoshino), na cidade de Yoshino, Prefeitura de Nara, é um dos pontos de floração das cerejeiras mais famosos no Japão. Foi proclamado "patrimônio da humanidade" em 2004, pela Unesco.

O macaquinho

 

Walter Rocha

 

1967, por aí. Nessa época, a garotada arrumava uma barraca e saía prá acampar em qualquer praia do litoral fluminense, numa boa, sem lenço e sem documento, sem esse vago e onipresente medo da violência de hoje em dia, apesar dos pesares daqueles tempos, "página infeliz da nossa história". Uma bagunça, quase sempre, um bando de adolescentes que arrumou tudo sem qualquer planejamento, e que mal conseguia dar conta de armar as barracas direito - imaginem as refeições! Ah, quanto macarrão temperado com areia!

O meu bando preferia as praias do sul do estado. Pegávamos um trem elétrico, na
Central do Brasil, e era uma eternidade cruzando os subúrbios cariocas, até o bairro de Santa Cruz, nos confins do município. Então, baldeávamos para um maria-fumaça conhecido como "macaquinho", com três vagões de passageiros, um deles de "primeira classe" porque tinha os bancos acolchoados.


A gente entrava justamente nesse, e se abancava nas poltronas como lordes, as mochilas e o resto da bagagem espalhada por todo lado, só prá obrigar o fiscal a nos enxotar para a segunda classe. O trem já estava em movimento quando o homem aparecia e pedia o tíquete do primeiro que encontrava. Aí a coisa virava uma zona digna das melhores comédias de filme mudo. A garotada a princípio fingindo não entender o que estava errado, depois armava o maior banzé prá juntar a bagagem, os daqui indo prá lá, os de lá vindo prá cá, infernizando o fiscal e os passageiros "legais".

Mas, depois de Itaguaí, a gente sossegava, olhando a paisagem. O caminho de ferro ia por um trecho de terra, relativamente estreito, entre o mar e a serra, atravessando pequenas cidades e povoados, parando em estaçõezinhas que lembravam aquelas dos filmes de caubói, Coroa-Grande, Itacuruçá,  Muriqui, Praia-Grande, Saí, Ibicuí, Mangaratiba.

 

Éramos felizes. Éramos jovens.

 

Cosmos

Portinari


 

 

 

 

Céu de primavera -
Uma estrela pisca-pisca 
O aqui e o outrora.

豹 哮

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